8281010655_a4158db540_o

Nunca mais passa o Sr. das Bolas de Berlim

It's only fair to share...Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Pin on Pinterest0

Se há clássico que persiste ao longo das gerações é o Sr. que apregoa a chegada das bolas de Berlim, percorrendo os areais todos os dias, até ao final do Verão. Houve em tempos tentativas, que evocaram o bem da saúde pública, para acabar com o delicioso creme das bolinhas que passeavam o dia inteiro nos cestos dos vendedores. Nessa altura, parecia um ataque coordenado de seres extraterrestres que nunca tiveram infância ou experienciaram um episódio de uma valente dor de barriga que acarretou traumas para a vida. Passando uma estação à frente, também as castanhas passaram as suas dificuldades, pois deixaram de poder ser confortavelmente embrulhadas em folhas de jornais. Não me interpretem mal, enquanto Nutricionista tenho que ser pró-higiene alimentar e sou-o. Mas do que me lembro, nunca ninguém deu o alerta sos por comer uma bola de Berlim com creme na praia nem por comer castanhas servidas no jornal.

Por ser tão amada, a bola de Berlim conseguiu a proeza de reverter as questões cremosas a seu favor. Benditos aqueles que enviaram reclamações a pedirem o seu retorno. Eu poderia fazer parte desse grupo, não fosse a posição que ocupo, que moralmente me obriga a dizer “Creme pasteleiro é para ser refrigerado e fritos fazem mal à saúde”.

Com a chegada do calor, as idas à praia tornam-se “o” plano prioritário (este ano meio comprometido com “Portugal joga hoje, temos que sair dez horas antes para não apanhar trânsito e garantir que vemos o jogo”). Se há estação que eu gosto é do Verão! Adoro acordar cedo com a luz a entrar no quarto, organizar a minha lancheira ultra-mega saudável, levar o guarda-sol e a cadeirinha, ir para uma praia deserta fora das horas cancerígenas e devorar um livro sem ser interrompida.

Esperem! Estou a sonhar (ou a delirar!). Basicamente o que acontece é que a casa fica fechada tipo convento sem nesga de luz, acordamos tardíssimo, ficamos horas no trânsito, chegamos à praia em plena hora de “não põe o pé na areia que queima”, o cão ocupa o chapéu todo ou acha que a minha toalha também é dele e não consigo ler uma frase sem quererem ter discussões filosóficas da última contratação da bola. A única coisa que me safa é que, nem que caia o Carmo e a Trindade, quem manda na lancheira sou eu (também tinha que conseguir mandar em alguma coisa!): fruta variada, salada fresca, ovo cozido e água, muita água para hidratar a tosta. Esperem! Estou a sonhar (ou a delirar!). Afinal só mando na minha lancheira. Há quem leve sandes de queijo, zero % legumes e zero % fruta. Lá diz o ditado “em casa de nutricionista, foge da sua vista”.

No meio disto tudo, enquanto me delicio com a minha saladinha começo a ouvir “Bolinhas fresquinhas!”. Bom bom, é come-las no final do dia de praia, após um banho refrescante, por isso finjo que tenho tampões nos ouvidos e não cedo à tentação.

São quatro e meia e anseio por ouvir o apregoar que faz a vida ter mais sentido quando se está na praia. Mesmo à beira-mar, temos que ter olhos nas costas e ouvidos de tísico. Vão por mim. A esta hora, se estivermos plantados numa extremidade da praia, o cesto já não chega cheio à nossa toalha.

Enquanto a bola não chega e a fome aperta, decido comer uma fruta e mentalmente começo a fazer cálculos matemáticos de calorias versus prazer (desculpem, mas é inevitável, colocaram-nos um chip com a tabela dos alimentos, houve um erro de formatação e o on está sempre ligado). “Posso sempre pedir uma bola sem creme. Posso sempre deixar para amanhã. Sim, é mesmo isso. Tenho o verão inteiro para comer uma, não preciso começar já hoje a intoxicar-me.”

Eis que oiço as palavras mágicas: “Bolinhas fresquinhassss! Acabadinhas de fazer!”. Corro como se tivesse chegado o meu salvador, compro uma cheia de creme, sento-me na toalha virada para o mar, sacudo o açúcar (toda a gente sabe que o açúcar faz mal!), dou uma trinca e penso “Ainda bem que os extraterrestres não foram bem-sucedidos.”

T.

Facebook Comments