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Coitado do (coração do) menino…

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Em Portugal, a imagem de uma criança saudável é, ainda, a de uma criança com algum volume corporal, muitas vezes até excesso de peso. É comum uma criança com peso saudável ser considerada “magrinha”. Ainda existe a noção de que a criança quer e deve comer alimentos doces com alguma frequência. E quantas vezes nesta altura do Verão não se vê crianças (às vezes até bebés) agarradas a um gelado, bola de Berlim ou chocolate… Afinal, é só uma criança, não se vai recusar, certo? Até é frequente ouvir-se a resposta “coitadinho do menino”, quando algum pai ou mãe recusam dar-lhe um “docinho”. Mas será que deve ser assim?

As necessidades energéticas de uma criança são bastante inferiores quando comparadas com as de um adulto, tal como demonstrado no gráfico abaixo (valores médios*):

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Ora, se uma criança de 3 a 8 anos deve consumir apenas 57% a 68% daquilo que os pais consomem, faz sentido apresentar-lhe um prato igual ao dos pais ao almoço ou jantar? Deverá repetir o prato? E deverá consumir mais alimentos calóricos, como os doces ou fritos? Muito pelo contrário… qualquer alimento muito calórico irá perfazer uma boa parte da energia que a criança deveria ingerir durante a totalidade do dia! Ainda, não existe qualquer prova ou indicação de que a criança tem necessidade fisiológica de consumir açúcar simples. Alimentos como a fruta, leite, iogurtes e farináceos, irão fornecer-lhe todos os açúcares naturais que precisa. Quanto mais saudável e cuidada for a alimentação de uma criança, mais alimentos poderá comer sem estar a ingerir energia em excesso e melhor nutrida irá estar, com as vitaminas e minerais que necessita.

Muitas vezes, surge ainda a questão de que a criança é saudável, logo pode comer o que quiser. Especialmente numa situação em que haja baixo peso ou até um peso saudável (muitas vezes considerado pouco, como já foi referido acima). Mas a saúde só se mantém se cuidar dela! E este facto é real também na infância. Em Portugal, uma em cada 3 crianças tem excesso de peso e está em risco de vir a sofrer de sérios problemas de saúde durante a sua adolescência e na idade adulta. Além da criança obesa ter maior probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, asma, doenças do fígado, apneia do sono e vários tipos de cancro na idade adulta, a sua saúde mental fica em risco logo na infância. Estão mais sujeitas a bullying, discriminação e a quebra no seu rendimento escolar. Correm maiores riscos de desenvolver depressão ou outras doenças do foro psicológico quando atingirem a idade adulta e mesmo na infância e adolescência. Ainda, cada vez mais estudos indicam que o efeito protetor do aleitamento materno atenua significativamente com a introdução de hábitos alimentares desadequados. Uma alimentação rica em gordura e açúcar representa o principal fator ambiental para desenvolver níveis elevados de colesterol na infância. Reconhece-se, ainda, que a aterosclerose (formação de ateroma nas veias e consequente bloqueio) é uma doença com origem na idade pediátrica, embora apenas se expresse na idade adulta.

Com todos estes dados, não se quer que as crianças deixem de consumir alimentos doces ou fritos na sua totalidade. Apenas tem de ponderar o que é ocasional, logo sem problema e o que é frequente e, assim, excessivo.

Retenha esta ideia: porque tem a sua criança no seu coração, não se esqueça de cuidar do dela!

*Institute of Medicine of the National Academies: Dietary reference intakes for energy, carbohydrate, fiber, fat, fatty acids, cholesterol, protein and amino acids, Washington DC, 2002, The National Academies Press, in Krause´s

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